Viajar de Kombi pela América do Sul começou como uma ideia improvável durante a pandemia e virou um ano sabático para Bruna e Gabriel, do Tomy Rumo. O casal transformou uma Kombi escolar de 2008 em casa, saiu do Paraná, chegou ao “fim do mundo” em Ushuaia e continuou até a Colômbia.
No Bolder Podcast, eles contam como construíram o veículo com as próprias mãos, viajaram com orçamento apertado, trocaram conteúdo por passeios e restaurantes e enfrentaram situações que incluíram frio de –10°C, estradas sem asfalto, homens armados e um anzol preso no olho de Gabriel. A viagem também plantou a ideia que os levaria, anos depois, a morar na Irlanda.
Quem são Bruna e Gabriel, do Tomy Rumo?
Bruna e Gabriel são de Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná, cidade com pouco mais de 100 mil habitantes e próxima à fronteira argentina. Embora sempre tivessem morado no mesmo lugar, só se conheceram quando começaram Administração na mesma turma da faculdade.
Bruna trabalhava como vendedora e depois abriu um estúdio de design de sobrancelhas. Gabriel começou como menor aprendiz numa distribuidora de bebidas, tornou-se vendedor e mais tarde trabalhou com o pai numa empresa familiar de mecânica e autopeças.
Os dois concluíram a faculdade. No último período, em meio à pandemia, passaram a assistir a canais de viajantes que moravam em vans e motorhomes. A Kombi pareceu a opção que cabia no orçamento.
Como surgiu a ideia de morar em uma Kombi?
A primeira proposta partiu de Gabriel. Para Bruna, a ideia parecia maluca: eles nem tinham morado juntos numa casa convencional. Durante a pandemia, Gabriel ficou na casa dos pais dela, e o casal passou diretamente do namoro para o projeto de viver dentro de um veículo.
O negócio exigiu um sacrifício sentimental. Bruna tinha um Golf 2006, seu primeiro carro e uma paixão pessoal. Eles entregaram o Golf e ainda pagaram aproximadamente R$2 mil para ficar com uma Kombi que havia sido usada no transporte escolar.
Quando chegaram com o veículo, o pai de Bruna perguntou se começariam a fazer entregas de supermercado. A resposta foi que construiriam uma casa ali dentro e atravessariam a América do Sul. No começo, a família achou que o plano não sairia do papel. A percepção mudou conforme os bancos desapareceram e o interior ganhou aparência de casa.
Quanto tempo levou para transformar a Kombi em motorhome?
A reforma e a preparação financeira duraram cerca de dois anos. O casal decidiu fazer quase tudo sozinho para economizar. Conforme recebiam dinheiro, compravam materiais, avançavam na construção e guardavam outra parte para a viagem.
Gabriel tinha familiaridade básica com ferramentas e aprendeu o restante durante o projeto. Bruna ajudava no que conseguia, mas reconhece que a maior parte da construção ficou com ele.
A Kombi recebeu cama retrátil, energia, geladeira, reservatório de água, banheiro químico, chuveiro e barraca externa para banho. A cama tinha aproximadamente 1,94 metro por 1,15 metro, uma das partes mais confortáveis do espaço.
O maior limite era a altura. Gabriel tem cerca de 1,80 metro e Bruna, 1,70; dentro do veículo, quase tudo precisava ser feito sentado. Cozinhar, lavar louça e organizar a casa exigiam uma rotina própria.
Por que fazer uma viagem-teste antes?
Antes de sair por um ano, eles levaram a Kombi para Mato Grosso e viajaram por aproximadamente 20 ou 30 dias, passando por Bonito e outros destinos. Também fizeram trajetos menores pelo litoral.
A primeira experiência assustou Bruna porque o veículo ainda não estava pronto. Sem geladeira, passaram um mês usando caixa térmica e gelo. O teste mostrou quais itens eram essenciais: energia, refrigeração, água e mais autonomia.
Essa é uma das recomendações centrais do episódio. Quem sonha com a vida na estrada não deveria vender tudo e investir imediatamente num motorhome. Alugar um veículo e viver nele por algumas semanas revela se a pessoa suporta pouco espaço, busca constante por água, banho limitado e mudanças de plano.
Quanto custa viajar de Kombi pela América do Sul?
Bruna e Gabriel planejaram gastar R$3 mil por mês durante 12 meses e saíram com R$36 mil. Para chegar ao valor, acompanharam outros canais e compararam estilos de viagem.
O orçamento era extremamente econômico. O combustível consumia a maior parte do dinheiro. Quando gastavam demais num trecho, paravam por alguns dias para equilibrar o mês. Restaurantes e passeios pagos não faziam parte da rotina normal.
Em um mês na Argentina, gastaram cerca de R$2,5 mil. O contexto cambial ajudava: na época, o real comprava muito mais no país, e o litro de combustível chegou a custar aproximadamente R$2 ou R$2,20 na conversão mencionada por eles.
Os valores não devem ser usados como orçamento atual. A viagem ocorreu cerca de quatro anos antes da entrevista, com câmbio e preços muito diferentes. No fim do ano sabático, o custo total chegou a aproximadamente R$54 mil, financiado pela reserva inicial, alguma receita do YouTube e parcerias.
Eles passaram fome para economizar?
Não, mas abriram mão de muitas experiências que exigiam pagamento. No Peru, onde a carne era cara para o orçamento do casal, ovos viraram a proteína mais frequente. Eles brincam que comiam pão com ovo de manhã e faziam um “almojanta” no fim da tarde.
Ao mesmo tempo, o conteúdo abriu portas para provar pratos locais. O Peru foi um dos países em que conseguiram mais parcerias gastronômicas, inclusive para conhecer ceviche, milho roxo e outros elementos da culinária peruana.
Como o Instagram e o YouTube ajudaram na viagem?
Eles saíram com aproximadamente mil seguidores. No primeiro mês, o canal chegou perto dos 10 mil, e o Instagram também cresceu. Em restaurantes e empresas de turismo, apresentavam a história e ofereciam vídeos e divulgação em troca da experiência.
No Atacama, conseguiram passeios que, somados, custariam cerca de R$15 mil — o equivalente a cinco meses do orçamento planejado. Em Mendoza, negociaram uma experiência com almoço e degustação de vinhos que custava aproximadamente R$600 por pessoa.
Bruna ressalta que não é necessário ter uma audiência enorme para propor uma permuta. Quando voltaram ao mesmo estabelecimento dois anos depois, agora com os pais, a parceria foi aceita novamente.
Um vídeo do pôr do sol com a Kombi rodando pela costa peruana ultrapassou 8 milhões de visualizações e acelerou o crescimento do perfil. Ainda assim, o casal alerta que rede social não deve ser a única fonte prevista para sustentar uma viagem. Poucos canais conseguem renda estável, e o trabalho leva tempo.
Qual foi a rota da Kombi?
O casal saiu do Paraná e percorreu Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia. O primeiro grande objetivo era chegar a Ushuaia. Depois, seguiram em direção à Colômbia, onde pretendiam finalmente conhecer San Andrés.
A ilha estava na origem de todo o projeto. Eles haviam comprado passagens para San Andrés antes da pandemia, mas a viagem foi cancelada. A frustração virou combustível para a ideia de chegar à Colômbia por terra, deixar a Kombi e voar até a ilha.
Depois de cumprir o plano e passar o Natal com amigos em Cartagena, iniciaram o retorno. Um trajeto construído ao longo de quase um ano foi percorrido de volta em aproximadamente 20 dias.
Por que a Patagônia foi tão marcante?
A Patagônia argentina e chilena apresentou ao casal neve, montanhas, glaciares e paisagens que eles descrevem como de outro mundo. A experiência ganhou ainda mais peso pelas amizades formadas com outros viajantes.
Em Ushuaia, encontraram um acampamento com mais de 20 motorhomes, muitos deles brasileiros. Ficaram aproximadamente 20 dias e percorreram mais de 100 quilômetros em trilhas.
Na descida, seguiram pela costa atlântica argentina. Na volta, subiram entre Chile e Argentina, acompanhando a Cordilheira dos Andes e passando pela Carretera Austral.
Como eram as travessias de fronteira?
Viajar com o próprio veículo acrescentava uma camada de burocracia. Além da entrada das pessoas, era necessário registrar a saída e a entrada da Kombi. Travessias que pareciam simples podiam levar oito, dez ou até 12 horas.
O limite de permanência também influenciava a rota. Depois de quase três meses na Argentina, eles entraram no Chile por alguns dias e depois voltaram a circular entre os dois países.
A Kombi quebrou durante o ano?
Apesar da fama de perrengues mecânicos, o veículo foi confiável. Em um ano, trocaram um cabo de embreagem e fizeram manutenção preventiva numa coifa, além de óleo e filtros.
A Kombi era de 2008. Gabriel explica que os modelos brasileiros a partir de 2006 receberam motor flex 1.4, semelhante ao usado no Fox, com injeção eletrônica e radiador. Na altitude, perdia potência e subia lentamente, mas continuava rodando.
Eles brincam que talvez o canal tivesse crescido mais se a Kombi pegasse fogo ou quebrasse repetidamente, porque o público costuma acompanhar perrengues como uma novela. Como viajantes, porém, preferiram a confiabilidade à audiência.
Como foi viajar pela Bolívia?
A passagem pela Bolívia durou aproximadamente quatro dias e teve como destino principal o Salar de Uyuni. O cenário impressionou, mas o país trouxe dificuldades para quem viajava de motorhome.
Havia falta de combustível e preços diferentes para turistas. Alguns postos não abasteciam estrangeiros normalmente, e o casal chegou a desconfiar da qualidade do combustível disponível.
Nas estradas, encontraram bloqueios com cordas e bandeiras, nos quais moradores pediam dinheiro para liberar a passagem. Bruna lembra a experiência com certo medo e diz que provavelmente não voltaria à Bolívia; Gabriel ainda retornaria ao Salar.
O Peru valeu a pena?
O Peru preservou elementos da cultura inca e ofereceu alguns dos pontos altos da viagem. Machu Picchu foi descrito como magnífico, Lima surpreendeu pelo desenvolvimento e a costa do Pacífico rendeu paisagens e o vídeo viral do casal.
Ao sair da região de Machu Picchu, eles escolheram uma estrada porque não tinham combustível suficiente para a rota alternativa. Um policial perguntou se tinham certeza e avisou que era uma região perigosa, recomendando que não parassem.
Foram mais de 100 quilômetros em condições tão ruins que o trajeto levou dois dias. A Kombi atravessou até um rio. Ao encontrar novamente o asfalto, viram homens de chinelo, sem camisa e com fuzis nas costas bloqueando a passagem. Quando outro carro cruzou a barreira, Gabriel aproveitou a abertura e acelerou.
Com pouco dinheiro em espécie e postos que não aceitavam cartão, colocaram apenas alguns reais de combustível e seguiram até encontrar um estabelecimento onde conseguiram encher o tanque.
Em Puno, o casal não se sentiu seguro para dormir na rua. Pagou um hotel que permitia guardar a Kombi, a única vez em que tomou essa decisão por insegurança durante a viagem.
O acidente com o anzol no Equador
O Equador foi a maior surpresa positiva para Bruna. Num território pequeno, o país reúne praias, vulcões, montanhas com neve e parte da Amazônia.
Foi ali, porém, que aconteceu o momento mais assustador. Durante uma pescaria no mar, Gabriel puxou uma linha presa. O anzol quebrou e atingiu a região entre o olho e a sobrancelha, ficando fincado.
O primeiro atendimento aconteceu numa vila de pescadores, onde o médico retirou o objeto com um alicate. Depois, amigos levaram o casal por cerca de duas horas até uma cidade maior para fazer exames e verificar se o olho havia sido perfurado.
Gabriel ficou alguns dias sem enxergar direito e levou meses para se recuperar totalmente, mas a visão foi preservada. O atendimento público não gerou cobrança, e a ajuda de outro casal foi essencial porque Bruna não se sentia segura dirigindo a Kombi.
Era perigoso dormir na rua?
Na maior parte do tempo, eles estacionavam em ruas, praças e postos. Um aplicativo colaborativo de viajantes indicava lugares com água, banheiro, energia e relatos de segurança ou assaltos.
O casal mantinha atenção, evitava carregar muito dinheiro e se sentia mais seguro quando viajava com outros motorhomes. Não sofreu roubo. Pelo contrário, muitas pessoas se aproximaram por curiosidade, ofereceram conversa, banho e ajuda.
Em Esquel, na Argentina, enfrentaram cerca de –10°C e passaram três dias sem banho. Uma família percebeu a situação e os convidou para tomar banho e lavar roupas em casa. Para eles, a viagem mostrou que existem muito mais pessoas dispostas a ajudar do que a prejudicar.
Como era enfrentar frio e calor dentro da Kombi?
O casal viveu extremos de aproximadamente –10°C a 40°C sem ar-condicionado ou aquecedor fixo. Havia isolamento térmico e um climatizador que ajudava um pouco no calor. No frio, um aquecedor elétrico só funcionava quando encontravam tomada externa.
Clima, falta de espaço e imprevistos alteravam o humor. Eles aprenderam a aceitar que o planejamento não seria uma linha reta e que problemas dependentes de mecânicos, fronteiras ou outras pessoas exigiam espera.
Por que eles trocaram a estrada pela Irlanda?
A ideia nasceu durante a viagem, numa conversa com Mayara e Diego, do canal Next Sunset, que já haviam morado na Irlanda. Gabriel voltou a propor uma mudança, e o casal terminou o ano sabático pensando em regressar ao Brasil, reconstruir a reserva e fazer intercâmbio.
Eles chegaram em casa com a Kombi e apenas R$200 na conta. Embora tivessem saído com R$36 mil, o custo final foi de cerca de R$54 mil. No mês seguinte, receberam o maior pagamento que o YouTube já havia feito ao canal, e a família também ajudou no recomeço.
Bruna reabriu o estúdio na mesma sala; Gabriel voltou a trabalhar, passou por atendimento e depois dirigiu para aplicativo. Em dois anos, economizaram novamente. Estimam ter organizado perto de R$100 mil para que os dois viessem com cursos, comprovações financeiras, reservas e passagens.
A Kombi foi vendida cerca de seis meses antes da mudança. Até então, ainda fizeram viagens pelo Brasil e mais duas idas à Argentina, incluindo uma aventura com cinco pessoas entre o veículo e uma barraca.
Como está a vida de Bruna e Gabriel na Irlanda?
Os dois chegaram como estudantes e sem falar inglês. Bruna começou em housekeeping e depois trabalhou com design de sobrancelhas dentro da Primark, atendendo principalmente clientes irlandesas. A necessidade de conversar e entender cada pedido acelerou seu idioma.
Gabriel começou como kitchen porter, mostrou serviço e avançou até chef de cozinha. A empresa ofereceu a oportunidade que resultou no employment permit e na mudança de sua situação migratória.
No momento da entrevista, Bruna havia saído do emprego para receber os pais, depois de ter férias negadas, e procurava uma nova vaga. O casal também iniciava os passos para ajustar a situação dela como parceira de Gabriel.
O inglês evoluiu da mesma forma para os dois?
Não. Gabriel diz compreender cerca de 80%, mas ainda trava ao falar. Seu vocabulário está concentrado na cozinha, onde muitos colegas usam português e espanhol.
Bruna estima entender aproximadamente 95% das conversas cotidianas. O atendimento ao público a obrigou a usar o idioma. Para o casal, estudar é importante, mas entrar em situações reais de comunicação foi o que transformou conhecimento em fala.
Por que eles não querem morar em uma van na Irlanda?
O aluguel para casal passa de €1 mil, e eles reconhecem que uma van poderia gerar economia. Um veículo preparado, porém, custaria algo como €10 mil a €15 mil, além de seguro, documentação, combustível e manutenção.
Energia solar é limitada pelo inverno irlandês. Aquecimento a diesel custa dinheiro, estacionar com segurança é um problema e até o banho exigiria deslocamento diário para academia ou camping.
Depois de adaptar-se a outro país, estudar, trabalhar em novas áreas e enfrentar o inverno, eles decidiram não abrir mão do conforto mínimo de uma casa: água na torneira, banho quente, cama e aquecedor. A experiência na Kombi fez os dois valorizarem ainda mais coisas consideradas banais.
Eles pretendem ficar na Irlanda?
O plano certo é permanecer por pelo menos os dois anos ligados à nova etapa migratória. Depois, consideram voltar ao Brasil, sobretudo pela proximidade com a família. Bolder desconfia que os planos ainda mudarão.
O casal reconhece que possuía trabalho e renda razoáveis no Brasil. A Irlanda oferece outras oportunidades e a experiência europeia, mas a distância dos pais pesa na decisão de longo prazo.
Qual conselho eles dão para quem quer viver na estrada?
Planejamento vem antes da estética da viagem. É preciso calcular dinheiro, manutenção, combustível, alimentação e emergência; entender quanto conforto será abandonado; e testar a rotina antes de investir todas as reservas.
Eles sugerem alugar um motorhome e viver por cerca de 30 dias como se aquela fosse a casa definitiva. O teste precisa incluir banho, água, energia, estacionamento e dias ruins, não apenas fotografias em destinos bonitos.
Também recomendam uma renda independente. Trabalho remoto, aluguel ou outra fonte previsível torna a viagem mais segura. Abrir canal esperando pagar imediatamente a estrada com YouTube ou Instagram é um plano frágil.
A história de Bruna e Gabriel não é sobre fugir dos perrengues. É sobre reconhecer o custo deles e decidir conscientemente que a experiência ainda vale a pena. Assista ao episódio para acompanhar a rota, os sustos e a transformação que levou o casal de uma Kombi escolar no Paraná a uma nova vida na Irlanda.
