Voltar ao Brasil depois de morar na Irlanda não precisa significar que o projeto migratório fracassou. Depois de dez anos no país, Patrícia Pigari retornou para ficar mais perto da família, estruturar sua empresa e aproveitar oportunidades que começaram a surgir no Brasil.
Nesta conversa com Bolder, Patrícia explica por que a mudança não aconteceu como uma decisão repentina. Ela foi ao Brasil sem data para voltar, acompanhou a avó com Alzheimer, reformou o próprio apartamento e percebeu que sua vida já estava se reorganizando por lá.
Neste vídeo
- Os primeiros empregos de Patrícia como au pair e cleaner
- A volta para a área de logística e supply chain
- Como nasceu a FlyUp Intercâmbios
- Os motivos familiares e profissionais para voltar ao Brasil
- Por que a forma de retornar faz tanta diferença
- Para quem a experiência de morar na Irlanda pode fazer sentido
De estudante de inglês a coordenadora de logística
Patrícia chegou à Irlanda como estudante de inglês. Seus primeiros trabalhos foram como au pair e cleaner. Ela permaneceu cerca de três anos com uma família, experiência que mais tarde lhe rendeu uma carta de recomendação usada em diferentes etapas da carreira.
Durante esse período, morou sete meses na Itália para concluir o reconhecimento da cidadania italiana. Quando voltou à Irlanda, já tinha avançado no inglês e possuía uma situação migratória que ampliava suas possibilidades profissionais.
Patrícia então retornou à área em que trabalhava no Brasil: administração, logística e supply chain. Passou por duas empresas de grande porte e chegou a um cargo de coordenação, lidando inclusive com equipamentos destinados ao Exército dos Estados Unidos.
A conquista levou anos. Por isso, abandonar um salário previsível para trabalhar por conta própria não foi uma decisão simples.
“Qualquer mudança que você faz na sua vida não é fácil. Vir para a Irlanda não foi, mas foi extremamente transformador.”
Patrícia Pigari
Como surgiu a FlyUp Intercâmbios
O caminho para o setor de intercâmbio começou dentro da própria área de logística. Em períodos promocionais, Patrícia precisava montar equipes temporárias de 20 a 25 pessoas e recorria a escolas e agências para encontrar estudantes disponíveis.
Com o tempo, intercambistas passaram a procurá-la para entender cursos, documentos e a chegada à Irlanda. Patrícia explicava o processo e depois encaminhava a pessoa a uma agência de confiança. Escolas e conhecidos começaram a perguntar por que ela não criava o próprio negócio.
A FlyUp nasceu dessa procura. Durante um período, Patrícia manteve a agência e o emprego em supply chain ao mesmo tempo. Quando a carga se tornou insustentável, decidiu dedicar-se integralmente à empresa.
Abrir mão da estabilidade valeu a pena?
Para Patrícia, a segurança do emprego era importante, ainda que nenhuma estabilidade seja absoluta. Ela sabia que tinha experiência suficiente para buscar outra vaga na área caso a agência não funcionasse.
A decisão repetia, em outra escala, o movimento que havia feito ao sair do Brasil: deixar uma estrutura conhecida para construir algo novo. A diferença é que agora ela já tinha inglês, referências profissionais e conhecimento do mercado irlandês.
Por que Patrícia deixou a Irlanda?
Depois de dez anos no país, a distância da família começou a pesar. O pai tinha enfrentado problemas de saúde, a mãe envelhecia e a avó vivia com Alzheimer. Patrícia já havia passado pela experiência de perder outra avó um dia antes de uma viagem ao Brasil.
Ao mesmo tempo, ela havia comprado um apartamento no Brasil e precisava acompanhar a reforma. A FlyUp crescia, mas ainda faltava uma equipe estruturada nas áreas administrativa e comercial. Patrícia trabalhava durante o dia, a noite e a madrugada.
Ela viajou sem passagem de retorno para permanecer algum tempo com a família e organizar a empresa. Não pretendia estabelecer uma mudança definitiva naquele momento.
A volta que aconteceu aos poucos
No Brasil, várias peças começaram a se encaixar. O apartamento ficou disponível para reforma, a saúde da avó piorou e a presença de Patrícia tornou-se ainda mais importante. A avó faleceu aproximadamente um ano depois, aos 96 anos.
A empresa também encontrou novas oportunidades: parcerias com escolas de inglês, montagem de equipe e o convite para Patrícia participar como coautora de um livro. Sempre que imaginava concluir uma etapa e voltar à Irlanda, outra possibilidade surgia.
Ao comparar a vida nos dois países, Patrícia percebeu que no Brasil morava em um imóvel próprio e estava perto da família. Na Irlanda, voltaria a pagar aluguel. Sua frase resume bem o processo: ela não resolveu ficar; percebeu que já estava ficando.
Voltar ao Brasil foi desistir da Irlanda?
Patrícia rejeita essa leitura. A agência nasceu na Irlanda e hoje permite que ela trabalhe de diferentes países. O apartamento, o carro comprado depois da volta, a experiência profissional e as viagens foram viabilizados pela trajetória construída no exterior.
Ela continua falando bem da Irlanda porque considera o país responsável por uma transformação pessoal e profissional. Morar no Brasil atualmente não apaga os dez anos vividos fora nem exclui a possibilidade de voltar no futuro.
“O maior problema não é voltar para o Brasil; é a maneira como você volta.”
Patrícia Pigari
Como se preparar para voltar ao Brasil?
A experiência de Patrícia não significa que todo retorno seguirá o mesmo caminho. O ponto central é criar uma estrutura antes da mudança para reduzir o choque financeiro e profissional.
- Defina como será sua renda. Patrícia já administrava uma empresa que podia funcionar remotamente.
- Planeje moradia e despesas. Ter um apartamento próprio alterou a comparação entre Brasil e Irlanda.
- Preserve contatos e referências. Cartas de antigos empregadores e landlords mantêm portas abertas.
- Considere a família no planejamento. Saúde, envelhecimento e tempo disponível tiveram peso real na decisão.
- Não transforme a mudança em uma sentença definitiva. Patrícia não descarta morar novamente na Irlanda.
As referências construídas na Irlanda
Um dos conselhos mais concretos do vídeo é deixar portas abertas. Patrícia guardou cartas da família para a qual trabalhou como au pair, de empresas e de diferentes landlords. Esses documentos ajudaram em processos profissionais e de moradia.
Para ela, a Irlanda é pequena e relações profissionais reaparecem. Sair de um emprego corretamente, cuidar da casa alugada e cumprir compromissos pode fazer diferença anos depois.
Intercâmbio na Irlanda ainda vale a pena?
Patrícia afirma que o país mudou desde sua chegada. Custos, exigências financeiras e fiscalização migratória tornaram o planejamento ainda mais importante. Ela recomenda viajar com a documentação completa e sem depender de exemplos antigos de pessoas que entraram com alguma exigência faltando.
As regras e os prazos mencionados no vídeo refletem julho de 2026 e podem mudar. Antes de contratar curso ou viajar, confirme a documentação exigida nos canais oficiais e considere uma reserva compatível com o custo atual de acomodação e vida.
Para quem a Irlanda pode não ser o destino certo?
A conversa não apresenta a Irlanda como um caminho rápido para enriquecer. Quem espera estabilidade imediata, uma casa individual e entrada direta na mesma posição profissional do Brasil pode se frustrar.
Patrícia compara o processo a subir uma escada. Ela saiu de uma carreira administrativa no Brasil, começou como cleaner e au pair, desenvolveu o inglês e só depois retornou à sua área em um cargo ainda maior.

Uma mudança não invalida a anterior
A história de Patrícia mostra que imigração não precisa ter um único final. Sair do Brasil foi a decisão certa em determinada fase; voltar, dez anos depois, também fez sentido quando família, moradia e empresa apontaram para outra direção.
Ela retornou à Irlanda neste vídeo acompanhando 13 adolescentes em um programa de verão. A estudante que atravessou o aeroporto sozinha agora voltava levando outras pessoas — uma imagem que resume o que permaneceu da experiência, mesmo depois da mudança de país.
Assista à conversa completa para conhecer os bastidores da volta e as reflexões de Bolder e Patrícia sobre carreira, família, intercâmbio e recomeços.
