10 brasileiros que recomeçaram a carreira na Irlanda

Recomeçar a carreira na Irlanda raramente significa jogar fora tudo o que foi construído no Brasil. Nas dez histórias reunidas aqui, profissionais experientes aceitaram trabalhos em cozinha, limpeza, atendimento, eventos e cuidados enquanto aprendiam inglês, entendiam o mercado local e reconstruíam sua rede de contatos.

Esses empregos não são menores nem aparecem como uma etapa a ser escondida. Eles pagaram contas, abriram portas e ensinaram como a Irlanda funciona. Ao mesmo tempo, nenhuma dessas trajetórias aconteceu por mágica: houve currículos rejeitados, entrevistas difíceis, mudanças de estratégia, cursos e meses — às vezes anos — de preparação.

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A seguir, dez brasileiros contam caminhos diferentes entre o primeiro trabalho e uma nova fase profissional. O ponto em comum não é uma fórmula pronta, mas a capacidade de reconhecer o que já sabiam, aprender o que faltava e agir com consistência.

1. Neemias Santos: de lavador de pratos a engenheiro de software

Neemias chegou à Irlanda com cerca de sete anos de experiência como desenvolvedor no Brasil. O obstáculo não era a falta de conhecimento técnico, mas o inglês necessário para explicar projetos, entender entrevistas e trabalhar em equipe. Enquanto desenvolvia essa habilidade, atuou como kitchen porter, fez limpeza de acomodações e recolheu lixo em festivais.

Foram mais de 30 entrevistas até a entrada na área de tecnologia. Em vez de continuar repetindo o mesmo processo, ele preparou respostas para perguntas recorrentes, praticou com professores de inglês e trabalhou a forma de apresentar sua experiência. O networking também foi decisivo: uma conexão reabriu uma oportunidade em uma empresa que já havia recusado sua candidatura.

Lição prática: conhecimento técnico precisa ser traduzido para o idioma e para o formato de contratação do país. Preparar exemplos concretos para entrevistas pode ser tão importante quanto enviar currículos.

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Neemias Santos: carreira na Irlanda
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2. Lucas Tavares: da cozinha ao trabalho no Facebook

Lucas fez curso técnico de telecomunicações ainda adolescente e acumulou aproximadamente cinco anos de experiência no setor no Brasil. Na Irlanda, porém, começou como kitchen porter em um restaurante dentro da Penneys. Ficou cerca de dois anos na cozinha enquanto lidava com o inglês, as limitações migratórias daquele momento e a dificuldade de se reposicionar.

Durante a pandemia, ele aproveitou o tempo para reorganizar o currículo e se preparar para processos seletivos. A primeira oportunidade na área veio na GTT. Mais tarde, depois de um processo com várias etapas técnicas, Lucas entrou no Facebook para trabalhar com infraestrutura de redes.

Lição prática: a experiência anterior continua valendo, mas precisa aparecer com clareza no currículo e nas entrevistas. Também é importante perceber quando a estabilidade do trabalho atual está adiando um objetivo profissional.

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Lucas Tavares: da cozinha à tecnologia
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3. Thallyette Maria: de cleaner ao Critical Skills

Thallyette já era contadora, tinha pós-graduação e experiência na área fiscal no Brasil quando chegou à Irlanda, em março de 2020. Poucos dias depois, o país entrou em lockdown. Seu primeiro trabalho foi limpar 12 prédios de seis andares. Ela também trabalhou como minder e na limpeza de escritórios.

Para voltar à contabilidade, estudou vocabulário profissional, conviveu com falantes nativos e chegou a enviar dezenas de candidaturas por dia. O volume sozinho não resolveu. A virada veio quando ela passou a adaptar o currículo às vagas e entrou em um estágio. Depois de quatro entrevistas, assumiu funções de contas a pagar, contas a receber e conciliação; mais tarde, avançou para uma posição internacional de payroll e recebeu apoio da empresa para a permissão de trabalho vigente naquela época.

Lição prática: enviar mais currículos não compensa uma candidatura genérica. Ajustar palavras-chave, responsabilidades e resultados à vaga aumenta a chance de o recrutador entender a compatibilidade.

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Thallyette Maria: de cleaner à contabilidade
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4. Stenio Araújo: dos trabalhos temporários à engenharia BIM

Stenio já trabalhava com construção a seco, consultoria e projetos no Brasil. Ao chegar à Irlanda em 2019, com inglês muito limitado, passou por uma agência de intercâmbio, cozinha, limpeza de eventos, coleta de lixo em parques e até preparação de gramado no Croke Park.

Depois de retornar ao Brasil durante a pandemia, ele voltou à Irlanda com uma estratégia mais definida. O currículo anterior reunia experiências demais e não deixava claro qual problema ele resolvia. Stenio então se apresentou especificamente como profissional de BIM. Em cerca de uma semana, recebeu três propostas e escolheu uma empresa que apoiou sua permissão de trabalho.

O reencontro com o Croke Park resume bem essa mudança: primeiro ele esteve ali em uma função operacional; depois, voltou como profissional de um projeto BIM. Lição prática: um currículo amplo demais pode esconder a especialidade mais valiosa. Posicionamento não é apagar experiências, mas organizar a narrativa.

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Stenio Araújo: engenharia BIM na Irlanda
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5. Rodrigo Teixeira: de kitchen porter ao visto em contabilidade

Rodrigo chegou à Irlanda pela primeira vez em 2016, com inglês básico, apesar de já ter experiência como auditor. Trabalhou aproximadamente seis meses como kitchen porter em um restaurante tailandês. A tentativa mostrou que apenas o histórico profissional não bastaria naquele momento.

Ele voltou ao Brasil e transformou o retorno em preparação: ganhou senioridade, trabalhou por anos em grandes empresas, tornou-se gerente e fez aulas de conversação com uma professora irlandesa. Quando tentou novamente, abordou empresas pelo LinkedIn, preparou um currículo direcionado e realizou os processos ainda em Salvador. Na primeira entrevista por telefone, o sinal e o sotaque atrapalharam; ele pediu que a próxima fosse por vídeo. O processo terminou com uma vaga de gestão e apoio do empregador para a permissão.

Lição prática: voltar um passo não encerra o projeto. Às vezes, é a decisão que permite preencher lacunas de senioridade, idioma e posicionamento.

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Rodrigo Teixeira: contabilidade na Irlanda
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6. Paula Araújo: de estudante ao emprego em marketing

Paula trouxe do Brasil uma carreira corporativa construída desde o programa de aprendiz, passando por atendimento, planejamento estratégico e relacionamento com clientes. Na Irlanda, chegou com inglês elementar e trabalhou como cleaner, garçonete, operadora de armazém e catering assistant. Em alguns períodos, conciliou dois empregos.

O caminho para o marketing foi sendo construído antes de existir um cargo formal. Paula fez um higher diploma em Business, estudou marketing digital e SEO e publicou o que aprendia no LinkedIn. Um empregador viu uma dessas publicações e permitiu que ela ganhasse experiência prática no comércio eletrônico da empresa. Depois, em uma startup, assumiu tarefas de marketing, administração e recursos humanos, até receber apoio para uma permissão de trabalho.

Lição prática: não espere o cargo ideal para começar a produzir evidências de que sabe fazer o trabalho. Projetos, conteúdo técnico e resultados pequenos formam um portfólio.

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Paula Araújo: marketing na Irlanda
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7. Eli Arruda: de intercambista ao trabalho em fintech

Eli havia trabalhado por cerca de quatro anos e meio no Itaú antes de chegar à Irlanda como estudante, em 2017. Seu início incluiu uma fábrica de cestas de Natal, restaurante e eventos. A primeira experiência de escritório no país veio em um call center que atendia clientes canadenses de segurança residencial.

Esse emprego não era a fintech que ele buscava, mas melhorou seu inglês e criou experiência corporativa local. Depois, Eli passou por uma empresa ligada a dados de mercados e commodities. Também fez uma pós-graduação nível 9 em Finance and Fintech na TU Dublin, por meio do Springboard, nas condições de subsídio disponíveis para seu perfil naquele período. A combinação de finanças, tecnologia, segurança e dados abriu caminho para fintech e regtech.

Lição prática: o primeiro trabalho de escritório pode funcionar como ponte. Ele ajuda a provar comunicação, rotina corporativa e adaptação ao mercado irlandês.

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Eli Arruda: fintech na Irlanda
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8. Carlos Sakai: de estudante a proprietário de restaurante

Carlos teve contato prático com a culinária japonesa ainda no Brasil, mas chegou à Irlanda como estudante e com uma reserva limitada. Seu primeiro emprego no país foi em uma casa noturna, trabalhando de madrugada com carga, limpeza e banheiros.

O negócio começou sem restaurante. Carlos preparava sushi para amigos da casa compartilhada e depois passou a cozinhar na residência de clientes. Na pandemia, testou delivery a partir de casa. A primeira divulgação recebeu mais de 400 mensagens; ele aceitou cerca de 30 pedidos, mas só conseguiu entregar parte deles. O erro mostrou, de forma concreta, a diferença entre demanda e capacidade operacional.

Com o tempo, vieram cozinha profissional, restaurante, eventos, delivery e workshops. Lição prática: antes de investir em estrutura, vale validar se existe demanda — e aprender a limitar pedidos, organizar produção e contratar conhecimento quando a operação cresce.

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Carlos Sakai: restaurante na Irlanda
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9. Higor Martins: da origem humilde a dono de fábrica

Higor começou a trabalhar aos 12 anos em uma fábrica de pães, em Limeira, e entrou na confeitaria ainda adolescente. Quando chegou à Irlanda, em 2017, dividiu uma casa com outras 14 pessoas. Para gerar renda, levava doces e coxinhas na mochila para vender na escola.

Depois vieram padaria brasileira, entregas de moto, pizzaria e uma grande cafeteria de Dublin, onde trabalhou à noite com panificação e confeitaria. Um empregador chegou a tentar uma permissão de trabalho, sem sucesso pelas regras aplicáveis à função naquele momento, mas ajudou a pagar seus estudos.

Higor formalizou a Its2eat, importou máquinas brasileiras para produção de salgados e passou pelo processo de registro e segurança alimentar. A fábrica começou a fornecer para food trucks, cafés e eventos. Lição prática: empreender não é apenas vender bem. Regularização, capacidade de produção e leitura de uma necessidade do mercado fazem parte do produto.

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Higor Martins: empreendedor na Irlanda
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10. Joana Izar: de fonoaudióloga no Brasil a cuidadora na Irlanda

Joana construiu uma carreira longa no Brasil como fonoaudióloga, profissional de educação física e especialista em gerontologia. Na Irlanda, os diplomas traduzidos não significavam autorização automática para exercer a mesma profissão. Em vez de tratar a mudança como fracasso, ela procurou uma área próxima de competências que já possuía.

Joana fez o QQI Level 5 voltado à saúde, com módulos teóricos, práticos e estágio. A experiência em uma nursing home levou à contratação; mais tarde, ela também trabalhou com atendimento domiciliar. Cuidado, comunicação e conhecimento sobre envelhecimento continuaram presentes, embora o cargo e o sistema profissional fossem outros.

Lição prática: mudar de profissão não exige abandonar tudo o que veio antes. É possível transferir habilidades para uma função regulamentada de outra maneira e construir experiência local enquanto se avalia o reconhecimento profissional.

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Joana Izar: cuidadora na Irlanda
Joana Izar no Bolder Podcast — clique para abrir a entrevista.

O que essas trajetórias têm em comum?

As dez histórias são diferentes, mas algumas decisões aparecem repetidamente entre brasileiros trabalhando na Irlanda:

  • Inglês aplicado ao trabalho: não apenas gramática, mas vocabulário técnico, entrevistas e capacidade de explicar resultados.
  • Humildade sem apagamento: aceitar um emprego inicial não obriga ninguém a negar a carreira anterior, nem torna esse trabalho menos digno.
  • Networking com conteúdo: conexões funcionaram melhor quando vieram acompanhadas de experiência, preparação e clareza sobre a vaga procurada.
  • Currículo direcionado: candidaturas genéricas tiveram menos efeito do que documentos adaptados à linguagem de cada função.
  • Qualificação estratégica: cursos ajudaram quando preenchiam uma lacuna real — regulamentação, conhecimento local, marketing, finanças ou tecnologia.
  • Persistência com ajuste: insistir não foi repetir eternamente a mesma tentativa. Os resultados apareceram quando a estratégia mudou.

Atenção às regras atuais de imigração

Algumas entrevistas foram gravadas há anos. Profissões elegíveis, faixas salariais, tipos de permissão e critérios de contratação podem ter mudado desde então. Use as experiências como referência de carreira, não como orientação migratória atual. Para verificar as regras vigentes, consulte a página oficial de Employment Permits do Department of Enterprise, Tourism and Employment.

Recomeçar não é apagar a trajetória

Quem busca emprego para brasileiros ou considera uma mudança de carreira no exterior costuma encontrar duas narrativas extremas: a promessa de sucesso rápido ou a ideia de que será preciso começar do zero. As histórias do Bolder mostram um caminho mais realista. Houve recomeço, mas não houve “zero”: experiência, disciplina, rede de apoio e conhecimento acumulado continuaram fazendo diferença.

O primeiro emprego sustentou o próximo passo. O inglês tornou a experiência visível. O curso certo resolveu uma lacuna específica. E o networking aproximou oportunidades que ainda exigiam preparo. Se você está planejando uma carreira na Irlanda, use os links de cada seção para assistir às entrevistas completas e comparar essas decisões com a sua realidade.


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